Trabalho, hora de saída e outras reflexões

23 outubro 2013


Tenho andado a pensar muito no trabalho, nas horas de saída e no impacto que este tem na minha vida, sobretudo porque tenho tentado mudar algumas coisas na forma como vejo tudo isto.

Quando regressei de férias, havia muito trabalho, coisas importantes, prazos a cumprir… Não havia forma de fugir, as coisas tinham que ser feitas e rapidamente! Nem havia grande tempo para planear, era fazer e pronto (eu detesto trabalhar assim mas teve que ser…). Voltei a ficar cansada, parecia que nem tinha tido férias!

Então depois de termos cumprido um prazo muito importante, parei um bocadinho para tentar arranjar formas de rentabilizar o meu tempo ao máximo, organizando melhor as tarefas e não permitindo interrupções.

O objectivo desta organização era tentar sair a horas e sair com a sensação de que fiz tudo o que era suposto, mas o trabalho estava a ser bastante e mesmo dando o meu máximo durante o dia tinha que trabalhar até mais tarde.

Foi nesta altura caí no exagero... Tanto quis que o tempo rendesse mais no trabalho que não fazia pausas todo o dia, saía na mesma tarde, andava muito stressada e tensa todo o dia. Depois em casa não estava a conseguir relaxar… 

A coisa esteve complicada durante umas semanas… não consegui manter os meus ritmos de manhã, tal era o meu cansaço, andava stressada e ansiosa. Enfim, não me andava a sentir bem. Senti mesmo que o trabalho andava a prejudicar a minha saúde e eu não podia deixar isso acontecer. Eu sei que há fases de mais trabalho e isso tudo bem, mas o problema era a forma como me estava a sentir e a pressão que estava a colocar sobre mim mesma, sem razão! Se ficar com um problema de saúde sério, pode não haver volta a dar e a saúde é muito mais importante do que o trabalho!

Desde que comecei esta caminhada minimalista, já li muito sobre o assunto, já defini as minhas prioridades, sei muito bem o quero e portanto não fazia sentido estar a comportar-me de forma contrária àquilo que penso e sei que é melhor para mim. Claro que o que pensamos é uma coisa e o que fazemos às vezes é outra, mas é preciso fazermos um esforço para que estas duas coisas estejam em sintonia, senão não nos sentimos bem connosco!

Eu senti que nestas semanas, tudo andava contrário do que devia e eu andava a sentir-me ainda pior por causa disso! Alguma coisa tinha que mudar!

Li sobre o assunto, reflecti, desabafei, pedi opiniões e tentei adoptar novas estratégias.

Afinal não tenho que fazer o trabalho todo num dia, certo? Senão então ninguém ia para casa, só saíamos quando terminasse tudo e depois das duas uma: ou caíamos para o lado ou éramos despedidos!

É portanto necessário definir prioridades (afinal falo sempre disto em relação à vida pessoal e no trabalho não deve ser diferente, certo?), começar por fazer o que é prioritário naquele dia e o resto fica para os dias seguintes. Não se consegue fazer tudo num dia, não é possível e há que saber lidar com isso. Há outras coisas lá fora à nossa espera (muito mais importantes) que nos permitem não só viver (à seria mesmo!), mas também descansar e recuperar energias para voltar a trabalhar no dia seguinte.

Por isso agora, o mais importante é manter os bons hábitos que tenho andado a experimentar: organizar o dia de trabalho assim que chego de manhã, definir o que é prioritário, registar as minhas tarefas e criar os respectivos alertas. Tenho usado o flow keeper (mais para contabilizar quanto tempo preciso para cada tarefa e para não me esquecer de fazer pausas) e também vou usando o outlook, onde registo as tarefas (como muitos mails dão origem a tarefas, é só seleccionar a opção de tarefa disponível em cada mail). Faço as pausas necessárias, para beber água, ir à casa-de-banho ou simplesmente para desviar o olhar do monitor (devemos tirar os olhos do monitor pelo menos de 20 em 20 minutos, o ideal é olhar para longe, por exemplo lá para fora). Tento fazer uma pausa mais longa com os meus colegas a meio da manhã e aproveito para lanchar. Caso tenha mais trabalho faço uma pausa mais curta no meu lugar e enquanto lancho, aproveito para navegar um bocadinho pela internet ou para escrever.
No final do dia vejo o que foi feito e o que ficou para o dia seguinte. Tento deixar as coisas organizadas e saio a horas e sem culpas!

E porquê sem culpas? (cá vai outro assunto que dá que falar…)

Porque acho que na sociedade portuguesa está implícito que ser-se dedicado é trabalhar fora de horas, é passar o dia todo no trabalho, é trabalhar aos fins-de-semana até!

Ora aqui é que discordo totalmente!

Devemos ser responsáveis e fazer o nosso trabalho com dedicação, mas nem 8 nem 80. Quando formos desta para melhor de certeza que não vamos pensar “Ai quem me dera ter trabalhado mais!”. Quanto muito, pensamos exactamente o contrário!

Além disso, muitas vezes trabalha-se até tarde, mas durante o dia há muitas distracções e pensando bem o tempo dedicado ao trabalho não foi assim tanto.

Para mim, o tempo é um bem precioso e portanto quero aproveitá-lo da melhor forma possível, o que neste momento passa por trabalhar menos e viver mais! Se pudesse trabalhava menos horas, nem que não tivesse pausa de almoço e gosto do que faço, portanto não tem nada a ver com isso. 

No meu caso, por exemplo, entro mais cedo do que a maioria dos meus colegas e por isso acabo também por sair mais cedo, e não é que às vezes me sentia mal por isso? Não devia, eu sei! Pois afinal fiz o meu trabalho e não perdi tempo com distracções. Só que todos saem muito depois da hora e esse espírito acaba por ser incutido em toda a gente...

Não controlo o que os outros fazem, nem me interessa. Mas da minha parte vou continuar a dar o meu máximo durante todo o dia e vou sair a horas. Apresentando o trabalho feito nas 8 horas diárias, só se mostra que afinal não tem mal nenhum sair a horas e que se consegue perfeitamente fazer o trabalho no tempo em que é suposto, sem prejudicarmos a empresa e também a nossa vida pessoal. 

Não vos parece que sair a horas, ter uma vida depois do trabalho, fazermos coisas de que gostamos, só nos torna melhores colegas de trabalho, melhores cidadãos e melhores pessoas? Eu acho que sim!

Por isso, Ana e todos os outros que como eu, por vezes ficam demasiadas horas no trabalho, e que se “esquecem” do resto, lembrem-se que apesar de quererem ser dedicados, de gostarem do que fazem, há coisas mais importantes lá fora! Saiam a horas e comecem a mudar mentalidades! 
Sair a horas não significa ser-se incompetente, não significa que se é preguiçoso, pouco produtivo, mau trabalhador. Pode significar exactamente o contrário! Uma pessoa que se dedica verdadeiramente ao trabalho, que perde pouco tempo em conversas e distracções acaba por conseguir fazer o seu trabalho nas suas 8 horas e consegue assim sair quando é suposto (não é sair mais cedo, é mesmo sair na "hora de saída", pois sair mais cedo tem a tal conotação negativa "está a sair mais cedo do que devia").

Mas ainda há outro tipo de trabalhadores, os que se queixam constantemente, que dizem que se pudessem não trabalhavam, mas que depois ficam no trabalho muito mais horas!

Não percebo! Portanto a essas pessoas o meu conselho é: queixem-se menos e façam mais por mudar a vossa vida, saiam cedo, aproveitem mais a vossa vida lá fora e vão ver que até terão menos vontade de se queixaram do trabalho!


E lá fora, nos outros países, como é? É bem diferente, pois é. 
Há uns tempos vi uma reportagem sobre a Alemanha e referiram que se um trabalhador ficar a trabalhar além da hora o patrão pode ser multado! Já imaginaram como seria se isto acontecessem em Portugal? Eu gostava de ver!

Enquanto fazia a minha pesquisa sobre o tema para escrever este post, voltei a ler dois posts sobre o assunto, aqui (sobre um horário de trabalho como nos países nórdicos):
“É isto que defendo: um horário que nos permita ter tempo para a vida familiar e, em troca, teremos de ser realmente produtivos no local de trabalho.” - Não poderia estar mais de acordo!

aqui (sobre o facto de nunca termos tempo para nada e ficarmos horas a mais no trabalho):
“8h para dormir, 8 horas para trabalhar, 8 horas para lazer” - Não vos soa lindamente? A mim sim!

E nos media também se tem falado sobre o assunto!
Já tinha começado a escrever este post, e curiosamente na segunda-feira à noite, na Sic notícias, falaram precisamente deste assunto, devido a uma campanha que está a decorrer que pretende promover a conciliação entre vida profissional e familiar. O mote da campanha é “ter tempo para ter tempo”.

Falou-se, entre coisas, que em Portugal o que importa é sair tarde do trabalho e que sair depois do chefe então ainda é melhor, mesmo que não se esteja efectivamente a trabalhar (o que não faz sentido absolutamente nenhum!), falou-se da necessidade de mudar este tipo de mentalidade, da importância que cada vez mais algumas empresas dão a esta temática, da necessidade de haver uma maior flexibilidade de horários e como a própria taxa de natalidade acaba por estar relacionada com o assunto (pois afinal não há tempo para as famílias). Também se falou em teletrabalho e na sua importância como forma de conciliar melhor o trabalho e a vida familiar, além de este ainda permitir reduzir custos para as empresas.

Gostei e espero sinceramente que haja mais campanhas como esta e que muita coisa comece a mudar. Temos que ser mais produtivos e mais felizes!

4 comentários:

  1. Ana, revejo-me completamente no teu texto!
    Os últimos meses têm sido muito difíceis para mim, precisamente pelo excesso de trabalho - uma pessoa a menos na equipa sem ser substituída durante quase três meses associado a um aumento exponencial de trabalho, fizeram-me chegar quase ao meu limite e tenho andado esgotada física e psicologicamente, o que se reflecte de forma muito significativa na minha forma pessoal. Para acrescer a este cenário, iniciei uma formação em horário pós-laboral, que durará até Dezembro, pelo que a maioria dos meus dias só termina às 23h. Relativamente à formação considero-a uma prioridade. É uma formação bastante completa, sobre um tema em que tenho muita dificuldade em intervir. É formação de qualidade e gratuita (o que é muito rara na minha área profissional), pelo que vale a pena o esforço!
    Portanto, nesta fase, adapto-me e faço o melhor que posso, atendendo a todas contingências!

    Relativamente ao trabalho (e tirando este período excepcional em que não tive mesmo outra possibilidade senão trabalhar mais horas e trazer trabalho para fazer em casa), por princípio e por norma, apenas trabalho mais horas quando é absolutamente necessário. Trabalhar muitas horas não é sinónimo de competência (pelo contrário, pode ser precisamente o oposto) e isso, a longo prazo reflecte-se. Há muita pressão no sentido de termos uma "carreira" e investirmos nela (se bem que as "carreiras" na conjuntura actual são uma espécie de mito urbano) e de sermos excepcionais. Pois bem, prefiro trabalhar o número de horas acordado, e trabalhar efectivamente nesse período do que trabalhar doze horas para fazer o que deveria ter sido feito em sete. Por outro lado, a "dedicação" rapidamente passa a ser encarada como "obrigação" e deixa de ser reconhecida/valorizada pela entidade patronal.
    Concordo plenamente que existe mais vida - a que efectivamente temos para viver!

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  2. «Não vos parece que sair a horas, ter uma vida depois do trabalho, fazermos coisas de que gostamos, só nos torna melhores colegas de trabalho, melhores cidadãos e melhores pessoas? Eu acho que sim!»

    Sem dúvida Ana! Falando de mim, cada vez mais, foco-me só e apenas naquilo que gosto de fazer! Claro que há um compromisso ou outro que lá tenho que fazer o frete, mas são cada vez mais raros. Na maior parte do tempo eu comporto-me em conformidade com aquilo que me dá prazer, com aquilo que traduz quem eu sou verdadeiramente e jamais com aquilo que os outros querem que eu seja! Eu sinto-me diariamente feliz, de bem com a vida, sinto-me uma mulher completa e tenho a certeza que isso se reflecte na minha relação com quem me ama e respeita, reflecte-se no dia-a-dia no trabalho e com os colegas de trabalho, no geral reflecte-se, sem dúvida, na minha relação com os outros que me rodeiam sejam conhecidos ou desconhecidos. Para mim as horas de trabalho são a ponte que me leva até onde eu gosto efectivamente de estar! E claro que no dia seguinte acordo bem disposta (com raras excepções), cheia de energia e vitalidade (hoje em dia é muito raro eu acordar ainda com sono), com boa energia e com vontade de abraçar o dia!

    «Já tinha começado a escrever este post, e curiosamente na segunda-feira à noite, na Sic notícias, falaram precisamente deste assunto, devido a uma campanha que está a decorrer que pretende promover a conciliação entre vida profissional e familiar. O mote da campanha é “ter tempo para ter tempo”.»

    Também vi parte dessa notícia! Confesso que me faz uma imensa confusão as pessoas que conheço que têm filhos, por exemplo, e que passam todo o dia longe deles e que ao fim do dia têm ainda viagens para fazer e que chegam a casa cansadas e com um tempo super reduzido para tratarem de si e dos seus filhos! Isso repele-me, confesso! Não me imagino em tal cenário! Com isto não quero dizer que para mim é impossível, mas olho com desagrado para esse tipo de cenário! Além do mais, também não me parece bem as pessoas depois de terem filhos deixarem de ter tempo para elas próprias! Aos meus olhos isso é errado, mas sem dúvida que com a vida profissional que as pessoas têm, acabam por não ter outra hipótese às veze e têm que optar e optam por dedicar todo o resquício de tempo aos filhos. Eu já acho mísero o tempo que passo com o meu Companheiro e com o meu cãozinho. Acho mesmo e o fim-de-semana é muito pouco. Como já disse antes, nós Ocidentais não temos qualidade de vida. E gostava muito que a nossa sociedade mudasse nesse âmbito. E também preferia não ter pausa para almoço e ter a tarde quase toda livre para assim ganhar qualidade de vida…Mas tenho esperança que algo ainda venha a mudar…Mas claro que faço os possíveis para ter a minha possível qualidade de vida  Mas não é fácil.

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  3. Ana, não poderia concordar mais com este teu post. É preciso coragem para ir contra o hábito instalado de sair o mais tarde possível, mas só assim é que as coisas podem mudar!

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  4. Completamente de acordo... é complicado em muitos trabalhos mas é necessário organização e persistência para vencer os "maus hábitos" de fazer constantemente horas extras. A vida pessoal suporta e motiva a profissional sem ela somos piores profissionais.
    Força nessa "luta" que conheço muito bem :)

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